6 de dez. de 2010

NOSSA VIDA DARIA UM BLOG - Menina no Temporal

Já contei que paralelo à nossa rua ficavam as terras do matadouro e da granja de arroz do Sr. Jardelino.
Os terrenos da rua eram separados dessas terras por um valo largo.
Nas terras do Jardelino também havia um mato com árvores nativas. No meio dessas arvores cresciam arbustos que davam frutinhas comestíveis. Uma dessas espécies era a amora silvestre.


De vez em quando, um grupo de crianças e adolescentes atravessava o valo e ia lá no mato colher amoras.
Era final de abril e fazia poucos dias que a mãe dera à luz o Geraldo.
Ainda estava no tempo de resguardo.
O dia estava lindo. O Vado pegou a Erica, o Mano e eu, e fomos todos brincar na casa da minha amiga Esterzinha.
O terreno da casa dela dava fundos para o valo de divisa do matadouro e a criançada resolveu atravessa-lo e ir no mato ver se já tinha amoras para colher.
Estávamos no mato e, de repente, aquele dia lindo começou a nublar e o tempo virou. Sem muita demora, grossos pingos começavam a cair. Quase não deu tempo de voltarmos para casa.
Quando fomos atravessar o valo, o Vado Pegou a Erica no colo e atravessou com ela. Todos passaram para o outro lado. Menos eu.
Ao tentar passar, o chão já estava molhado e escorregadio. Fiquei com muito medo e travei. Nessa altura, a chuva apertou muito, e num instante eu estava encharcada, molhada até os ossos.
E a chuva aumentava. Trovões e relâmpagos aos montes se faziam ouvir. Eu gritava e chorava apavorada, com muito medo, mas ninguém me ouvia, pois o barulho da chuva era ensurdecedor.
Todos os dias chegavam bois para serem abatidos, e eles ficavam soltos no pasto. E naquele dia tinha muitos bois ali. Estavam parados na chuva e mugiam assustados.
Eu não consegui atravessar no terreno da Esterzinha e vim caminhando mais para perto da casa que ficava em frente à nossa. E isso era bem perto do lugar onde os bois ficavam. Eu estava ali parada chorando e gritando e eles me olhavam.
Agora, além da chuva, relâmpagos e trovões, estava mais apavorada ainda com medo de que algum deles viesse me atropelar e matar.
Mas simplesmente não via jeito de sair dali.
Cheguei então num lugar onde havia um estreitamento do valo, devido a uma queda do barranco, onde dava para uma criança passar sem desmoronar mais. Daí eu pude passar para o outro lado saindo no pátio da vizinha. Atravessei o terreno dela e saí no portão bem em frente à nossa casa.
Quando cheguei em casa chorando muito, assustada, a mãe quase teve outro filho. Pensando que eu estava na casa da minha amiga, tinha ficado tranquila, mas assustou-se muito ao me ver daquele jeito.
Ela mandou o Vado esquentar água para eu tomar um banho e trocar de roupa. Depois do banho deu-me um melhoral infantil “para cortar algum resfriado” e mandou-me deitar para me esquentar e acalmar.
Felizmente, logo eu estava recuperada, e o dia voltou a ficar bonito, pois a chuva parou e o Sol voltou a brilhar, mas nunca esqueci desta tarde apavorante.







Escrito por Elmira.

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