Não tínhamos bonecas. Nem sei se a gente se importava com isso.
Naquele tempo, as bonecas eram feitas com corpo de pano e os braços, pernas e cabeça eram de louça. Essas partes eram muito frágeis e quebravam com facilidade e elas custavam muito caro.
Acho que por isso não tínhamos nenhuma.
Um dia, no Natal, a Esther comprou uma boneca para mim e uma para a Erica. Eram de um tipo diferente de material que estava sendo lançado no mercado: bonecas de plástico.
Elas eram lindas!
A da Erica era um bebê que estava vestido com uma calcinha plástica e tinha uma mamadeira presa no bolso por uma borrachinha. O bebê tinha um furinho entre as pernas e a boquinha aberta. A gente dava mamadeira de água e ele fazia xixi. Era uma gracinha.

A minha boneca era uma mocinha loura, de cabelos brilhantes e lindos olhos azuis. Os cabelos eram presos em trancinhas. Ela devia ter perto de trinta centímetros de altura. Vestia calça de brim azul e blusinha cor-de-rosa com bolinhas vermelhas e calçava sapatinhos brancos.

Era a coisa mais linda do mundo!



Veio em uma caixa colorida.
Depois de brincar eu a guardava na caixa.
Um dia, eu estava brincando com ela e a mãe me chamou para me mandar fazer alguma coisa. Deixei a boneca ali onde estava brincando e fui fazer o que ela mandou.
Quando voltei, um dos guris, não lembro qual, tinha pegado a minha filha e arrancado a cabeça dela, estragando-a.



Chorei muito. Ninguém arrumou minha boneca.
Até hoje me lembro dela.
Acho que foi a única que eu gostei.
As outras não eram tão bonitas e não preencheram o vazio nem tiraram a tristeza daquela perda.
Acho que foi a primeira grande perda da minha vida.

Escrito por Elmira.



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