Pois sempre que em conversa com alguém já veterano de viagens e com algum conhecimento sobre a vida aqui nos Estados Unidos, um alerta me era transmitido: as despesas com saúde, principalmente com Dentistas, são algo astronômico e utilizar-se dos serviços de um Profissional dessa Especialidade é impensável.
Quando decidimos vir e com bastante antecedência, partimos para uma revisão geral, ai no Brasil. Médicos de variadas especialidades e, principalmente, Dentistas, foram visitados pela familia que, por um par de mêses foi submetida a toda a sorte de exames e avaliações possíveis. Tudo para que, pelo menos por um bom tempo, pudéssemos evitar algum tratamento médico ou dentário por estas Terras.
Como sempre, as coisas funcionam até por aí. Passados poucos dias por aqui e a filha pequena sentiu ressurgir um problema num dente e que já de ha muito, ainda aí no Brasil, vinha lhe causando transtôrnos. Tudo bem, o contratempo não fora detectado nos exames que antecederam a viagem e agora a solução era mesno encarar um DENTISTA.
Sorte que um dos Cartões de Crédito que trouxemos dava cobertura para situações de emergências. Fomos salvos, portanto, nessa primeira oportunidade. Bem, mas passado algum tempo alguém teve um problema de gripe e dôres de garganta. Mais uma vêz nos salva o seguro do Cartão de Crédito. Mas essa moleza, pelas regras do Cartão, acabaria em tres meses. Ainda bem que, depois disso, as coisas voltaram à normalidade.
Estivemos depois em Porto Alegre e lá partimos para outra revisão, para não acontecer como da vez anterior.
Passado algum tempo resolvemos, por aqui mesmo, fazer uma visita ao Dentista ( lembrei dos conselhos da Kolynos : "duas vêzes ao ano visite o Dentista, três vêzes ao dia seja Kolynosista"- ah,ah...) Bem, mas para resumir a estória, aquilo que tanto me alertavam sobre os preços para esses serviços, aqui nos Estados Unidos, na verdade não é bem assim. É muito pior. Olhem só onde vim parar: a Califórnia é reconhecida em todo o País como referência em matéria de tratamento Dentário. Isso graças ao Cinema e as vaidades dos Astros Holliwoodianos que, bons no desempenho da Arte, nem sempre andavam em dia com a aparência, principalmente dos dentes. Necessitando, vez ou outra, de verdadeiros milagres para organizarem a "mobilia bucal".
Alguns profissionais ficaram tão famosos que eram requisitados por "nove entre dez estrelas do Cinema", assim como o sabonete Lux.
Bem, mas o que quero dizer é que depois de idas e vindas, após peregrinarmos por clínicas e consultórios, sendo que alguns eram filiais ou franquias daqueles que tratam dos dentinhos das Estrelas do Cinema e da Televisão, com preços que estão mais para "efeitos especiais" do que para tratamentos essenciais, finalmente agendamos um horário para toda a família ( nesse caso sempre é dado um desconto especial)
Quando conferimos o endereço, deu para ver que a Clínica ficava nas imediações da Disneylândia. Quase uma hora de freeway. Mas tudo bem, pois pelas informações obtidas por telefone, os preços eram realmente muito mais em conta. Restava conferir.
E lá fomos nós.
A pessoa que nos forneceu a indicação da Clínica, mencionou que eram uns Orientais. Isso para nós não era de surpreender, já que profissionais de área médica por aqui são, em geral, estrangeiros. Filipinos e Indianos parecem os mais numerosos. Mas também há muitos Japoneses, Coreanos e mesmo Chineses.
Em lá chegando, vimos que era um Consultório, ou melhor, uma Clínica bem concorrida.
De aparência mais simples que alguns outros locais que percorrêramos. Até mesmo o aparelho de TV , para distração da clientela, na sala de espera, era um "vinte polegadas" de tela plana e tudo mais, mas modesto, se comparado com os de 40 e tantas polegadas e com telas LCD ou Plasma que outros ofereciam. Mas naquele momento isso era irrelevante. Importava mesmo é que lá estávamos .
Na sala de espera e na recepção circulavam pessoas falando uma lingua estranha e que eu não conseguia imaginar o que pudesse ser, quanto menos entender.
Sou chamado por um nome que nada tem a ver com o meu, pela forma como é pronunciado. Percebo que a coisa é mesmo comigo porque a Carla e a Denise já tinham sido chamadas e, como estávamos no mesmo grupo, deduzi que o próximo só poderia mesmo ser eu ( além do mais outras pessoas que lá estavam não levantaram e isso também ajudou).
Lá fui eu por um corredor e a menina que me conduzia, toda de azul e que pensei fosse a Dentista, me leva para uma sessão de Raios-X dos meus dentes, é claro. Um sistema diferente onde não há aquela chapinha de celulóide, revelada como filme fotográfico, mas as imagens são visualizadas na tela de um computador com um sistema de cores que variam conforme o problema detectado.
Passada essa estação, outra dama, essa vestindo rosa e de rosto mascarado me leva até a cadeira ( acho que na verdade aquilo é uma cama, em todo o caso..). Lá ela me dá um monte de explicações sobre meus dentes, o que me deixa assombrado com tudo o que ela diz, primeiro porque não entendi nada, pois ela falava com uma máscara sobre o nariz e a boca e ainda tinha uma proteção de plástico transparente cobrindo todo o rosto e, como se não bastasse, aquele "sotaque" parecendo um humorista tentando imitar a fala de um chinês. Era mesmo uma criatura de outro mundo. Mas me ajudou muito.
Durante esse tempo, quando nossa conversa girou sobre amenidades, fico sabendo que o grupo todo de auxiliares, dentistas e recepcionistas são VIETNAMITAS. Todas mulheres. E essa era a confusa liguagem que "circulava" naquela sala de espera.
Estendido na cadeira ( ou cama? ), cercado por uma dúzia de aparelhos e aquela luz infernal que me dava uma estranha sensação de estar todo vermelho, como numa sessão de bronzeamento, a assistente de cor-de-rosa me faz um gesto e murmura através da máscara que eu passaria a ser atendido pela Doutora..... Não entendi o nome, mas vi que uma mulher alta, toda de branco já sentava ao meu lado. Miss Saigon. Ao vivo, imagino eu. Mas toda mascarada e também com aquele pára-brisa incrível no rosto. Pouco posso ver, a não ser os seus olhos castanhos e uma expressão de quem parecia estar se divertindo com o meu "pavor" quando ela levantou aquela maldita seringa e a apertou, fazendo esguichar um pouco de líquido anestésico.
Terminada essa primeira experiência, retornei dias depois para prosseguir no tratamento prescrito. Nova "tortura"( acho mesmo que como resultado das guerras vividas pelo Vietnã, seja contra Franceses ou Americanos, deixou o pessoal especializado nessa Arte), pois dessa vez Miss Saigon superou todas as expectativas. Além de fazer uso da infernal anestesia em duas ocasiões, manteve o cotovelo apoiado sobre minhas costelas o tempo todo, o que me fez, ao chegar em casa, encarar algumas massagens com "Gelol" ou coisa parecida e que pode ser encontrado por aqui.
Mas parece que o pior passou. Depois de tudo isso estou com alguns acessórios bucais completamente renovados, revestidos com capas especiais que por aqui chamam de crown ( coroa). Bom trabalho mesmo, apesar do massacre. Melhor ainda pelo preço, que se não é tão camarada quanto os que meu amigo Dr. Jorge Jaskulski sempre me cobrou aí em Porto, pelo menos também não chegou a ser tão assustador assim.
Parece que por unanimidade a familia ficou satisfeita com os resultados. Em alguns meses mais adiante já temos programado um novo encontro com aqueles aparelhos estranhos dos consultórios dentários e, mais uma vez, nos submetermos à habilidade da enigmática e mascarada Miss Saigon e de suas Assistentes.
João Carlos - Leesburg, VA.
Contado por Campão








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