Sabes, Campão?
Quando chega perto da revisão anual da minha pele, pela Dra. Maria da Graça, minha Dermatologista desde 1985/1986, vem à minha mente todo o horror que foi eu descobrir, em 1986 que eu tinha um carcinoma baso-celular no nariz. A notícia que ela me deu foi logo após o diagnóstico de câncer terminal da minha queridíssima mãezinha. Recém eu soubera que a mãe tinha no máximo seis meses de vida, e que cada vez ela ficaria mais debilitada e sem forças. Estava desesperada, me sentindo a mais desamparada das criaturas, e tinha trazido a mãe para morar comigo, para cuidar dela. Então, quando a Dra. Maria da Graça disse que eu tinha câncer também, senti uma descarga de cortisona ou adrenalina, não sei, só sei que foi uma pontada atravessando meu corpo, me tirando as forças. E agora? Como ia cuidar dela se também ia morrer? Foi uma das sensações mais terríveis que eu senti até hoje.
Aos poucos o terror foi se dissipando. Carcinoma baso-celular é uma doença curável, se percebida a tempo e começei o tratamento com pomada, e só depois que a mãe faleceu, como a pomada não adiantou e o câncer reicindivou, eu fiz tratamento de radioterapia.
Para fazê-lo, lá no Hospital Santa Rita, fizeram uma máscara de chumbo que colocavam sobre meu rosto, só com um buraco bem sobre a parte afetada do nariz. Eu tinha que ficar deitada com a máscara e imóvel, durante um minuto, enquanto recebia a radiação (acho que foi por isso que atualmente me dá crises de síndrome do pânico em alguns aviões pequenos ou em aparelhos de ressonância magnética - parece que eu vou parar de respirar, que estão me enterrando viva).
Foram 30 aplicações, e eu ia sozinha, na hora do almoço, e não contei para ninguém lá do serviço.
Como eu era diferente do que eu sou agora. Também não contei para ninguém que a mãe estava doente. No Serviço Público a gente tem o direito de tirar licença para cuidar de familiares doentes, mas eu não pedi nada. Ainda bem que nos anos anteriores eu não tinha tirado férias, e contei com a bondade do Cel. Loro, da SUTEL, que nessa época estava substituindo o Secretário. Ele me autorizou a tirar todas as férias atrasadas e assim pude ficar cuidando da minha mãe. Ela durou exatamente 8 meses, dois meses a mais do que a previsão dos médicos.
Mas a minha mãe, que sempre foi uma mulher de fibra, corajosa e resiliente, não se mixou para a doença, não. Ela teve tempo, em vez de se lamuriar e sentir pena de si mesma, de arrumar a vida de todo mundo, encaminhando os filhos desviados e sem rumo e dando um banho de força, coragem e bom humor em todos que entravam em contato com ela. Uma leoa até o fim. Sem queixas, sem revoltas, achando tudo natural e próprio da vida. Que Esther maravilhosa!! Que privilégio nós tivemos em nascer dela e compartilharmos a vida com ela.
Estou falando tudo isso para constatar que agora eu sou muito mais aberta (mas também muito mais hipocondríaca). Conto mais minha vida e partilho com os outros o que está me acontecendo (vide o coitado do Ayres que teve que me aturar durante mais de dez anos o meu climatério).
Campão, falo tudo isto porque só te contei o que se passava comigo depois que minha mãe morreu. Nem contigo reparti a angústia que estava passando. E eras meu melhor amigo. É porque naquele tempo eu achava que desmoronaria se alguém se apiedasse de mim. Então ficava trancada.
Lembras que eu te convidei para almoçares lá em casa e então te falei tudo? E a comida foi feita pela Graça, que tinha me ajudado a cuidar da mãe, fazendo comida para nós.
Acho que almoçaste outras vezes, quando a Graça ia limpar a casa ela sempre fazia comidinhas deliciosas para nós.
Bem, deixa eu postar logo, antes que me arrependa de me abrir tanto.
Abraços
COMO VC LIDA COM AS AMEAÇAS?
Há 2 meses



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