Sobrevivência
Erica e Ayres:
Apesar de muito gostar de viajar, conhecer outros lugares, eu, na verdade, dempre procurei fugir da idéia de um dia morar num outro País. Talvêz até porque quando da minha infância e adolescência convivi com muitos estrangeiros, imigrantes que procuraram se estabelecer ali em Canoas e também nas Cidades Vizinhas. Todos com seu peculiar "sotaque" denunciando suas origens, como o Germânico dono da pequena ferragem ou do açougue lá no fim da nossa Rua; o Italiano do armazém; o Ucraniano, cabelo cor-de-fogo e companheiro de Ginásio ou, ainda, a Eslovena, mãe de uma colega de aula de minhas irmãs, com os "erres" carregados e olhos muito azuis. Assim como Russos, Poloneses, Libaneses e tantos outros. Pois essas pessoas, apesar de conquistarem seus lugares na Comunidade, na época, nunca deixaram de ser "estrangeiros", alguns vistos até com desconfiança, outros passando dificuldades incalculáveis, a começar pelo complicado domínio do novo Idioma, que até nós, gurizada de colégio já sofríamos para entender.
Pois agora, com mais de sessenta anos, vivendo uma aposentadoria depois de alguns anos de trabalho, uns bons outros difíceis, mas que ao final deu para atingir meu objetivo, me encontro aqui, "aboletado" neste País do Norte, inicialmente na Califórnia que, segundo os gringos, o Sol está presente o ano todo. Depois mudei aqui para o Leste, nas terras da Virgínia.
É possível que o temor de cada brasileiro que sai para uma viagem, deixando sua vizinhança, seu bairro, Cidade ou Estado, seja o de adaptar-se com a ausência de coisas do dia-a-dia e que fizeram sua vida até então. Disso tudo, o mais crucial é, sem duvida, a alimentação. A comida e alguns complementes a que se está habituado ( o chimarrão, dos gaúchos, por exemplo), tornam-se, muitas vêzes, motivo para um repensar, ou seja, algo do tipo: "o que estou fazendo aqui, meu Deus ...? "
Pois apesar de todos esses temôres, algumas vêzes, com criatividade e um pouco de sorte, nós conseguimos superar essas barreiras. Senão vejam só: em San Clemente, próximo da praia, lá na Califórnia (não é uma Cidade grande), há um pequeno mercado que, quando lá estive pela primeira vez, era de um imigrante Cubano, atualmente foi comprado por um "gringo" que até trocou o nome do negócio para "Market Ranch". Pois nesse mercadinho minhas filhas se abasteciam de Guaraná da Antártica e eu até comprava minhas Brahmas, as brasileiras mesmo, só que com uma garrafa diferente. O "cara" tem até feijão "Tio João", sem falar nos pães-de-queijo e naquela farofa temperada da "Yoky ". Ali comprávamos o Café do Ponto, apesar de que há alguns cafés de marcas mexicanas que são muito bons e de sabor semelhante aos nossos daí.
A carne, apesar de que comemos pouca, é muito boa e até churrasquinhos a gente costuma preparar. Claro, são mais rápidos , já que as churrasqueiras são movidas a gás. Para os puristas, em matéria de bairrismo e saudosismo, é fantástico, mas não que seja fundamental, pois a comida por aqui, notadamente na Califórnia, é bem razoável, ressalvando o alto nível de tempero, principalmente a pimenta ou "chili" que é uma instituição mexicana e que deixa a cozinha bahiana meio constrangida, no início a gente meio que estranha. Mas em geral a cozinha deles, os mexicanos, é muito boa e o interessante é que são grandes apreciadores de feijão e arroz, além da tortilla que não pode faltar na mesa em hipótese alguma ( é uma massa, feita em geral de farinha de milho branca e esticada no formato redondo de uma mini-pizza, mas bem fina).
No mais não tem mistério, principalmente se a gente decide cozinhar em casa, pois os ingredientes e temperos que gostamos, são encontrados por aqui. A meninada quando chega se lança nos Mc Donalds, Pizza Hut e outros do gênero, mas com o tempo vai descobrindo também as comidas de verdade e aí então acaba aquela saudade dos pratos caseiros que mamãe fazia.
Mas é isso.
Outro dia conto mais sobre essa questão de comidas e restaurantes.
Até, Gurizada.
João Carlos Campão - Leesburg, VA.
Contado por Campão.



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